Que fim bizarro: quando o fanatismo engole a razão

Prisão de Silvinei Vasques expõe o custo do fanatismo político, a quebra do dever institucional e as consequências de escolhas ideológicas que ultrapassam os limites da lei e da democracia.

Silvinei comandou bloqueio a eleitores de Lula em 2022. Foto: Reprodução

A prisão de Silvinei Vasques não é apenas uma notícia policial. É uma crônica dura sobre o que acontece quando a idolatria substitui a consciência e a ideologia passa a valer mais do que a lei. O desfecho é bizarro porque poderia ter sido evitado. Mas não foi. E não foi porque houve escolha.

Trinta anos de carreira na polícia não desaparecem de um dia para o outro. Eles são construídos com disciplina, concursos, madrugadas de serviço, hierarquia e, sobretudo, compromisso com o Estado — não com governos, líderes ou crenças pessoais. Quando esse pacto é rompido, o que sobra não é erro técnico, é decisão moral.

Silvinei Vasques não caiu por acaso. Não foi vítima de uma armadilha do destino, nem de um deslize pontual. O que se viu foi o fanatismo levado ao limite: a convicção de que um projeto político justificaria o uso da máquina pública, a distorção do papel institucional e o abandono da neutralidade que sustenta qualquer democracia funcional.

Há algo de profundamente simbólico nessa cena. Um agente do Estado, que deveria garantir direitos, passa a agir como militante. Um servidor público troca a Constituição por narrativas. E, nesse processo, acredita que está acima das consequências. Não está.

A prisão expõe uma verdade incômoda: a radicalização não poupa currículos, cargos ou fardas. Ela corrói por dentro. Transforma profissionais experientes em peças de um jogo que não controla seus danos. O resultado quase sempre é o mesmo — vergonha pública, queda abrupta e um silêncio pesado onde antes havia autoridade.

Mostrar essa cena ao mundo não é vingança, é alerta. É o retrato do que acontece quando instituições são capturadas por paixões políticas e quando indivíduos confundem lealdade ideológica com dever funcional. Democracias não ruem apenas por golpes explícitos; elas também se desgastam quando servidores esquecem quem realmente devem servir.

No fim, o caso de Silvinei Vasques não fala apenas sobre um homem preso. Fala sobre limites. Sobre escolhas. E sobre como o fanatismo, quando não é contido, cobra seu preço — alto, público e inevitável.



Silvinei Vasques - Administrador brasileiro e ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal

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